Durante anos, boa parte da conversa sobre relógios colecionáveis ficou concentrada em modelos esportivos de aço. Caixa robusta, pulseira integrada, resistência e associação com automobilismo, mergulho ou aviação formaram uma espécie de vocabulário dominante do mercado. Esses relógios continuam relevantes, mas já não ocupam sozinhos o centro das atenções.
A ascensão da Cartier entre colecionadores mostra uma mudança de gosto. Em vez de avaliar um relógio apenas pela complexidade do movimento ou pela capacidade de suportar condições extremas, cresce o interesse por proporção, desenho de caixa, elegância e identidade visual. O relógio volta a ser observado como objeto de design.
O sinal mais evidente dessa transformação apareceu nos leilões. Em abril de 2026, um Cartier London Crash de cerca de 1987 foi vendido na Sotheby’s Hong Kong por HK $15,616 milhões, aproximadamente US$1,99 milhão. A peça, considerada uma das raríssimas produzidas durante uma breve retomada do modelo no fim dos anos 1980, estabeleceu um novo patamar para o Crash e reforçou a força de relógios cuja importância está diretamente ligada à forma.
O interesse por Cartier não significa que Submariner, Royal Oak, Nautilus, Speedmaster e outros ícones esportivos tenham perdido relevância. A mudança está na ampliação dos critérios usados por compradores e colecionadores.
Dados do relatório do mercado secundário da Chrono24 e da Fratello mostram que, dentro da plataforma, a participação da Cartier nas compras da geração Z passou de 1,7% para 6,8% entre 2018 e 2025. No mesmo período, a presença dos relógios sociais nas compras desse público cresceu 44%, e a categoria chegou a representar 12% das aquisições feitas pelos compradores mais jovens.
Esse movimento ajuda a explicar por que caixas menores, pulseiras de couro, metais preciosos e desenhos menos convencionais voltaram a ganhar espaço. Para uma geração acostumada a usar roupas, acessórios e objetos como expressão de identidade, um relógio reconhecível pela silhueta pode ser mais interessante do que outro reconhecido principalmente pela ficha técnica.
A Cartier se beneficia porque desenvolveu, ao longo de mais de um século, um repertório visual difícil de confundir. Algarismos romanos, ponteiros azulados em forma de espada, coroas com cabochão e atenção às proporções permitem que muitos modelos sejam identificados antes mesmo que o nome Cartier seja lido no mostrador.
Em relojoaria, valor de coleção nunca depende de um único fator. Raridade, estado de conservação, procedência, originalidade dos componentes, documentação e importância histórica continuam decisivos. O que mudou foi o espaço ocupado pelo desenho nessa equação.
Um relógio de design forte não precisa ser grande nem visualmente agressivo para criar presença. Ele pode ser reconhecido por uma curva, pelo encontro entre caixa e pulseira ou pela maneira como os numerais acompanham o mostrador. Essa legibilidade visual favorece peças que atravessam décadas sem depender de tendências passageiras.
A Cartier também ocupa uma posição particular por atuar na fronteira entre alta relojoaria, joalheria, moda e história do design. Isso amplia o público potencial de seus relógios.
Essa capacidade de circular entre diferentes universos ajuda a explicar por que os relógios da marca passaram a aparecer com mais frequência em coleções que antes eram quase inteiramente dedicadas a modelos esportivos. Não se trata apenas de buscar outra marca, mas de adicionar outra linguagem ao acervo.
O Cartier Crash é o exemplo mais extremo dessa lógica. Criado em Londres em 1967 por Jean-Jacques Cartier e pelo designer Rupert Emmerson, o modelo nasceu em um ambiente marcado pela moda, pela contracultura e pela experimentação visual. Durante muito tempo, o modelo foi cercado por histórias que associavam sua origem a um relógio deformado em um acidente ou às pinturas de Salvador Dalí.
A raridade aumenta o interesse. Os primeiros exemplares londrinos foram produzidos em quantidades muito pequenas, e as reedições posteriores também permaneceram limitadas. No Crash, portanto, forma, contexto cultural e baixa oferta trabalham juntos.
O preço de quase US$2 milhões não transforma todo relógio de design em investimento. Ele demonstra, porém, até onde o mercado pode levar uma peça quando identidade, importância histórica e escassez se encontram.
Algumas referências tiveram forte valorização, mas relógios não oferecem retorno garantido. Para colecionadores, autenticidade, conservação, procedência e relevância histórica devem pesar mais do que expectativas de ganho rápido.
A força atual da Cartier revela uma mudança importante: a coleção contemporânea já não precisa ser construída apenas em torno de desempenho, esportividade ou aço. Há espaço crescente para relógios que permanecem relevantes porque apresentam uma ideia clara de forma.
Quando o desenho é suficientemente original, o tempo deixa de ser apenas aquilo que o relógio mede e passa a ser aquilo que confirma sua importância.
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